Thu 19 Nov 2009
Dizem por aqui que os furacões são um preço baixo a se pagar para se morar no paraíso (em referência a essa região da Flórida que é maravilhosa). Essa percepção vem do fato de que, embora haja todo ano uma temporada oficial de furacões, raramente eles são destrutivos a ponto de as pessoas terem que evacuar a região ou causar danos significativos. Não é raro acontecer de um furacão de categoria leve passar e, por precaução, as pessoas serem liberadas do trabalho, mas sem a necessidade de evacuar a área. Aí vai todo mundo aproveitar pra fazer um churrasco. São as chamadas “Hurricane Parties” (segundo meu marido), que em outras palavras significa “vamos comer e beber bagarái enquanto chove e venta bagarái”.
Mas às vezes o buraco é mais embaixo. Às vezes passam furacões violentos por aqui (os mais recentes tendo sido Ivan em 2004 e Dennis em 2005). Ivan foi o mais destrutivo. Teve o tamanho do estado do Texas e atingiu categoria 5 (a máxima, veja aqui a escala) em nível de intensidade. Mas muito embora tenha causado muitos danos nessa região, os danos maiores foram em outros lugares.
De qualquer forma, fato é que os EUA são um país que convive com desastres naturais de vários tipos. Por aqui são os furacões, em outros estados são tornados, ou terremotos, etc.
Quando cheguei aqui não sabia muito bem o que esperar com relação a isso. Cheguei depois do término da temporada de furacões, então muitos meses se passaram até que o assunto entrasse em pauta com frequência nas conversas e na mídia. Mas em um lugar que precisa estar preparado para este tipo de coisa, existem sistemas de prevenção que ficam alertas o tempo todo. As TVs a cabo e por satélite interrompem o sinal periodicamente (mesmo fora da temporada) como teste de aviso metereológico, para gatantir que na hipótese de uma emergência, o sistema esteja funcionando corretamente e a população possa ser avisada.
Ao longo dos primeiros meses, via isso acontecer e não dava muita bola. E, sem conhecimento dos tipos de avisos, bela noite lá pela 1h da manhã a TV apitou e entrou um “warning” na parte inferior da tela com um mapa. Era um “severe weather - flood warning” (clima severo e aviso de enchente) para o nosso condado. Não fiquei assustada, mas acordei o marido pra ter certeza. Vai saber, não é? Eu sei que furacão e tornado são coisas diferentes, mas furacões às vezes trazem tornados de brinde e se você assistiu Twister fica ao menos com a pulga atrás da orelha ao ver um aviso destes pela primeira vez. Bem, ele ouviu, olhou a tela, deu um sorriso (provavelmente achando um pouco de graça), me tranquilizou e voltou a dormir. Daí pra frente me acostumei com os avisos na tela da TV - que aliás assisto muito raramente - e o clima correu tranquilo por vários meses.
Chegou Junho e a região começou a se preparar. Aí o assunto entrou em pauta na mídia, nas conversas e se via informação sobre isso por todos os lados. Fomos chamados para uma palestra sobre “Hurricane Preparedness” na base da aeronáutica, para aprendermos a estar preparados na eventualidade de um furacão significativo resolver passar por aqui. Eu quis ir porque estaria sozinha aqui na época em que isso poderia acontecer. Ficamos uma hora ouvindo sobre tudo o que se possa imaginar: estoque água e alimentos não perecíveis porque pode faltar água e energia elétrica, mantenha $500 em dinheiro na carteira porque os caixas e sistemas eletrônicos podem não funcionar, mantenha o tanque dos carros cheios porque falta gasolina e aí você não tem como ir pra lugar nenhum se a região tiver que ser evacuada, tenha reservas de alimentos para animais de estimação caso não possa sair de casa, tenha preparada uma pasta com todos os documentos importantes (pronta para ser colocada no carro), faça seguro das suas coisas, tenha documentos de compra e de propriedade dos seus bens incluindo aparelhos de valor significativo na sua casa, exija dos proprietários reforço nas janelas - ou coloque você mesmo se a casa for sua… - e assim por diante. Explicaram sobre as categorias de furacões, sobre a logística dos avisos. Falaram sobre tudo, distribuírm guias, CDs e um checklist. E avisaram: comecem a preparar isso AGORA, não esperem chegar o aviso de que um furacão está vindo na nossa direção porque você pode se enrascar.
Normalmente, quando um furacão vai passar por uma região, essa probabilidade é rastreada com 2 semanas de antecedência segundo me informaram. Então, a única coisa que você tem que fazer é ficar de olho na informação, seja pela TV ou pela internet. Embora estas tempestades possam mudar de curso e eles nunca tenham 100% de certeza com relação à trajetória, ela em geral é relativamente previsível. Como eu raramente assisto TV, instalei uma extensão pro Firefox do Weather Channel e assinei alertas para o celular. E via Twitter e Facebook também não tem como passar batido.
A temporada de furacões este ano foi relativamente tranquila. Este mês, no entanto, houve uma surpresa. Embora a temporada vá oficialmente até Novembro, nesta época já não se espera que nada aconteça. Dia 8 deste mês eu tinha ido passar o domingo numa cidade vizinha e, na volta, enquanto notava que o tempo estava mudando, ouvi no rádio uma estação local falando sobre o furacão Ida que estava vindo na nossa direção. Tomei um susto. Como era mesmo aquela história de que os avisos chegam com 2 semanas de antecedência?? Pois é, aparentemente não é SEMPRE assim. Eles conseguem rastrear tempestades que se formam na costa da África e vêm em direção à América do Norte, mas este furacão se formou inesperadamente já próximo da costa dos EUA. E no domingo, quando ouvi pela primeira vez sobre ele (embora já tivesse sido noticiado na sexta como tempestade) estava de repente com intensidade 2. Abaixo, um vídeo sobre o furacão ganhando intensidade:
Cheguei em casa e tratei de me informar. Nenhum aviso sobre evacuação e tudo indicava que ele estava se enfraquecendo. Apesar disso, na segunda-feira já tinha gente no Facebook dizendo que estava de malas prontas. Um baita exagero! Resolvi conversar com o vizinho de frente que mora aqui há muitos anos e passou pelos furacões de 2004 e 2005. Ele disse que não havia nada com o que se preocupar, que de fato o furacão tinha enfraquecido e seria apenas uma tempestade tropical. Me aconselhou, no entanto, a ficar em casa, checar as janelas e colocar pra dentro tudo o que pudesse ser arrastado pelo vento, inclusive latas de lixo. Fui no WalMart dar uma reforçada em algumas coisas só por precaução (embora tivesse tudo em casa) e aí entendi o porquê de eles aconselharem que você esteja preparado com antecedência: o supermercado estava bombando de gente, havia pouquíssimas caixas de água mineral restantes, estava tudo acabando. E isso é um misto de gente tentando se preparar pra ficar em casa e gente preparando as festas, porque até carne e cerveja estavam acabando.
No fim, foram dois dias de muita chuva e vento, mas nada sobrenatural - até porque, ao chegar aqui, o furacão tinha de fato perdido força e era só uma tempestade tropical. Ele fez estragos em outros lugares, mas não aqui. Mas, por precaução (pois estas coisas têm um certo grau de imprevisibilidade), fiquei em casa. Recebi um email da base da Aeronáutica dizendo que os aviões tinham sido transferidos para outros lugares, que a base estaria fechada e os funcionários seriam liberados - com exceção daqueles que são responsáveis por cuidar justamente de problemas relacionados a furacões e outras atividades essenciais.
Correu tudo tranquilo e tenho certeza que muita gente aproveitou o fato de que o dia seguinte era um feriado para emendar festejando e descansando.
Mas é isso, morar em algumas regiões dos EUA tem este lado também. Felizmente essa temporada parece que terminou. Em teoria ela vai até Novembro, então nunca se sabe. Mas minha preocupação maior com relação ao tempo daqui pra frente é mesmo manter a casa quentinha, porque enquanto escrevo isso às 11:50 da noite em pleno 18 de Novembro já está fazendo 7 graus lá fora. Ano passado tivemos zero graus em alguns dias na Flórida em Dezembro e, como o frio começou cedo este ano, estou achando que este inverno vai ser de lascar.





November 19th, 2009 at 8:06 pm
Aqui são os terremotos. Teve um no meio de BC essa semana, mas não afetou Vancouver. E tem o tal “Big One” que tá pra vir a qualquer momento (ie: hoje ou daqui a 100 anos).
November 19th, 2009 at 11:19 pm
Não sabia dos terremotos aí, Ana. Mas faz sentido pela localizacão (tomando por base a Califórnia). Vocês fizeram algum treinamento sobre isso?
November 22nd, 2009 at 2:23 pm
Bacana ver a preparação dos caras, nada como know how. Se ai o frio começou cedo, por aqui, claro, o calor também está forte. 40 graus em novembro!!! Isso é calor de verãozão em janeiro. O comentário geral no Rio é de que se já está fazendo esse calor agora, imagina no verão…
November 28th, 2009 at 12:28 am
Bom… no Brasil não temos ‘Hurricane Parties’… já que aqui os furacões são diferentes… começam em Brasilia, ganham força e devastam nossa economia! Estamos livres dos ‘grandes’ desastres naturais - mas as ‘Pizza Parties’ rolam soltas em alguns lugares bem conhecidos… ts, ts…
Boa sorte por aí!
December 5th, 2009 at 8:03 pm
Patricia, fico muito feliz de poder voltar a ler você! Não perdia um post sequer e vim muitas vezes aqui procurar por notícias suas… Sucesso nesta vida nova, você merece!