Wed 18 Nov 2009
Desde que cheguei nos EUA, venho querendo escrever sobre algumas das diferenças que encontro por aqui quase que diariamente. Todo país tem seus prós e contras, não vou fazer apologia a país nenhum, mas este artigo é para falar sobre algumas coisas positivas do estilo de vida americano.
Minha experiência aqui ainda é curta (aproximadamente um ano) e minha amostragem é pequena (pois é baseada apenas em um estado), mas a conclusão à qual cheguei com base nisso, observando as pessoas aqui, foi a seguinte: o americano, acostumado a viver em um país rico, tem expectativas em termos de qualidade de vida e do que é considerado básico, diferentes daquelas em países mais pobres como o Brasil. Vou usar o critério de moradia como exemplo:
Onde eu moro, a grande maioria das pessoas vive em um dos 4 seguintes tipos de moradia: casas, apartamentos, “condos” ou “town houses”.
Apartamentos nessa região não são em prédios altos. Quando muito são construções de 2 ou 3 andares em algo que se assemelha a um mini condomínio. E são bonitinhos, parecem casinhas. “Condos” são condomínios de casas com áreas de lazer comuns com piscina, churrasqueiras, etc - e cada um tem suas regras, alguns deles são, por exemplo, para pessoas idosas ou aposentadas. As casas nestes “condos” em geral são muito boas e paga-se uma mensalidade de manutenção dos condomínios. Por fim, “town houses” são casas geminadas, em geral em duplas de sobrados. Os aluguéis das “town houses” são mais baratos, mas as casas são espaçosas e bonitas.
Independente de qual tipo de moradia estejamos falando, todas elas têm como ítens básicos: aquecimento e ar-condicionado, água quente em todas as pias, pelo menos uma banheira (em geral, todos os banheiros têm banheiras). Isso é o básico, é impensável uma casa pra eles aqui sem isso. Não entrei em um apartamento ainda, então não sei se eles têm banheiras, mas o restante sim.
Em cidades mais metropolitanas, como Nova Iorque, evidentemente é diferente por causa da concentração de pessoas e quantidade de prédios altos, mas numa cidade tipicamente americana na Flórida, todas as casas têm também jardim - na frente e nos fundos. Pense nas casas do bairro mostrado na série Desperate Housewives - é exatamente aquilo, embora o tamanho das casas varie. Onde eu moro na Flórida, uma casa que é considerada padrão tem 3 dormitórios, 2 banheiros, cozinha e 2 salas, garagem para um ou dois carros, com uma área construída de 250 a 300 metros quadrados (estou estimando isso de cabeça), fora a área externa, em geral com um deck ou pátio. A maioria já vem equipada com geladeira, fogão, lava-louças, lava-roupa e secadora. Esquece varal, dificilmente você vai ver alguém aqui pendurando roupas e depois passando, a não ser peças que precisam ser passadas (exceção). As únicas coisas que compramos pra essa casa onde moramos foram a lavadora de roupas e secadora que a casa não tinha, mas fogão, geladeira e lava-louças já faziam parte do pacote.
O americano de classe média vive assim. Quando digo que a expectativa deles é diferente, é porque se compararmos com o brasileiro de classe média, ele veria determinadas coisas como um luxo. O brasileiro classe média compra um apartamento de 80 metros quadrados, sem aquecimento ou ar-condicionado, sem banheira, sem vista e acha que está ótimo, porque finalmente conseguiu comprar sua casa própria. Se você oferecer pra um americano uma casa sem aquecimento, mesmo na Flórida (pois em estados onde neva é uma necessidade), ele vai rir da sua cara. Eles estão acostumados a outro padrão de vida.
E isso é resultado não só de se morar em um país rico, mas também um reflexo cultural de como o país trata determinados tipos de trabalho. Um dos exemplos que vejo mais de perto é o jardineiro aqui de casa. Já começa que eu sou a exceção: aqui o americano médio não contrata jardineiro, corta sua própria grama. Todo mundo faz isso. Meu marido faz, mas na ausência dele contratamos alguém pra cuidar disso.
Essa pessoa vem aqui uma vez por semana para manter a grama aparada e o jardim em ordem. Chega em uma caminhonete bacanuda, com cortador de grama daqueles que você dirige e outras ferramentas ou elétricas ou a gasolina. O cara não põe a mão numa tesoura de jardim. Cobra US$100 por mês pra vir aqui uma vez por semana e fazer um trabalho que não leva uma hora.
Consideremos que ele trabalhe em média 8 horas por dia, portanto fazendo 8 casas. Assumindo que ele cobre este valor em todas as casas (o que não é verdade, pois varia de acordo com o tamanho do jardim, portanto outras casas pagam mais e outras menos, então vamos manter a média em $100 para efeito de exemplo), ele tem 40 clientes por semana, o que significa que por mês ele tira 4 mil dólares. Cortando grama. Considerando que o aluguel de uma casa média nessa região varia entre $900 e $1300 dólares (menos se for um apartamento ou “town house”, por volta de $600-$700) e sem contar com o salário da mulher dele que também trabalha, um jardineiro aqui está muito bem de vida. Até onde sei, da última vez que ele tirou férias foi passear nas Bahamas, na anterior foi pra Europa. No Ano Novo do ano passado foi festejar em um passeio de barco com tudo do bom e do melhor e assistir os fogos da baía.
E isso vale também pra outros tipos de trabalho do gênero, como eletricistas, encanadores, pintores, carpinteiros, etc. Então o contraste social acaba sendo mínimo.
Dito isso, a crise econômica afetou todo mundo. E acho que eles sentem o tombo de outra forma também, justamente por estarem tão acostumados com este nível de estilo de vida. Muitas pessoas perderam suas casas, seus empregos, etc. A casa do lado da minha ficou fechada (abandonada) por um ano. Então o que estou vendo aqui agora é a realidade de um país em crise econômica, nem todo mundo está vivendo da forma como descrevi acima.
O consumo baixou bastante. Dia 26 de Novembro eles comemoram Thanksgiving, ou Dia de Ação de Graças - um dos meus feriados favoritos aqui. Para marcar o início da temporada de festas e estimular o início das compras para o Natal, no dia seguinte ao Thanksgiving (iniciando à meia-noite) eles têm o chamado “Black Friday“, que é tradicionalmente um evento nacional de ofertas altamente atrativas, especialmente no varejo. Produtos são vendidos a preços baixíssimos. Até onde sei, eletrônicos e brinquedos têm a maior procura e recebem os melhores descontos. Em momento de crise, isso é um prato cheio tanto para consumidores quanto para o varejo em si, que trabalha com uma margem de lucro menor, mas ganha na quantidade e desova estoque.
Eu planejava ir a algumas lojas para ver de perto este evento e aproveitar os preços baixos, mas ao que parece as filas são gigantescas e a multidão fica enlouquecida dentro das lojas (todo ano tem algum caso de gente ferida ou algo do gênero), então mudei de idéia. A boa notícia é que as lojas online também oferecem descontos interessantes, portanto, mesmo para quem está no Brasil, fica a dica: se você estava querendo comprar algo na Amazon ou em qualquer outra loja americana que faça envios internacionais, a hora é agora.





November 21st, 2009 at 1:55 pm
Fico muito feliz de ver você escrevendo novamente aqui.
Adoro seus texto e já estou me preparando para a Black Friday!
Beijos!
November 21st, 2009 at 11:52 pm
Oi, Liliana, obrigada.
Estou feliz por estar escrevendo novamente também.
Vai fazer umas comprinhas durante a Black Friday?
Bjs.
November 22nd, 2009 at 3:01 pm
Interessante o insight. O curioso é que esses dias estava justamente vendo os tipos de moradia e os valores na Suíça. A diferença é muito grande mesmo, nessas horas é que o contraste entre países pobres e ricos aparece forte. Coisas que a lá ou aí se consideram básicas e que por aqui as pessoas ficam feliz quando conseguem. A desigualdade social é muito grande… Bacana a visão americana. Quando puder eu faço uma de lá, rsrsrs. Queria ver um dia desses sua opinião sobre aspectos do povo. Beijos!
December 31st, 2009 at 2:03 pm
Compro sempre na Amazon, não me arrependo nunca. Adorei o que disse, isso da banheira chocou-me, risos. Estou num fim de mundo, chamado Brasil então. Não vejo a hora de estar em território americano!
Beijos e feliz ano novo.