Já há algum tempo, eu venho lendo alguns artigos e ouvindo alugns podcasts de um blog que não vou mencionar agora, porque vou indicá-lo amanhã no meu post do BlogDay. Mas este blog fala de desenvolvimento e crescimento pessoal. Não, não aquelas baboseiras de auto-ajuda. O autor do blog oferece perspecivas pouco convencionais, cheias de insights, de um ponto de vista que por enquato vou chamar de filosófico - por falta de uma palavra melhor. É um prato cheio pra mim, que normalmente já gosto deste tipo de coisa (abordagens filosóficas), mas ultimamente estes textos e podcsts estão muito em sinergia com o momento que estou vivendo e me ajudando a fazer questionamentos importantes.

Eu já ensaiei mil vezes pra começar um post falando não só sobre este blog, mas sobre os assuntos que ele aborda. E hoje, lendo um dos artigos, fiquei pensando em algo e resolvi escrever este post.

Vou começar com uma pergunta: você é o tipo de pessoa que vai atrás dos seus sonhos? Antes de responder esta pergunta, pense em outra: quais exatamente são seus sonhos e até que ponto eles são autênticos ou condicionados pela nossa sociedade e pela nossa cultura? Vou dar um exemplo: se você sonha em casar e ter filhos, já parou pra pensar se isso é algo que você realmente quer ou se você foi tão condicionado(a) desde pequeno(a) a pensar que este é o desenvolvimento “natural” da vida, que inconscientemente você acabou abraçando este “sonho” como sendo seu, quando, na verdade, pode até ser que, sem este condicionamento, você jamais pensaria nesta possibilidade? Ou então, será que você não está tão imerso nas expectativas sociais que sequer considerar a possibilidade de não se casar e ter filhos lhe parece fora demais de contexto para que você tenha a coragem de optar por uma vida menos convencional?

Nós, seres sociais, em geral olhamos com uma certa desconfiança para aqueles que optam (não se acomodam, OPTAM) por estilos de vida diferentes da maioria e tendemos a “achar” que há algo de errado com estas pessoas. Se alguém não se casa ou não quer casar, é porque tem medo ou dificuldades em relacionamentos, por exemplo. Enquanto isso pode ser verdade em alguns casos, nunca paramos para pensar que isso pode ser uma escolha consciente e baseada em coisas que nada têm a ver com medos ou inabilidades pessoais. E provavelmente tendemos a pensar desta forma, porque isso nos dá uma falsa sensação de conforto de que os certos somos nós, vivendo nossas opções conformistas e condicionadas.

Ainda este fim-de-semana estava conversando com uma prima que tem 29 anos. Ela namora, mas mora sozinha, é independente, tem a vida dela. E me disse: “Patty, eu não quero casar ou ter filhos, pelo menos não por enquanto. Pode ser que isso mude um dia, mas por enquanto estou bem e feliz como estou. Não quero dividir meu espaço com outra pessoa, não quero abrir mão da minha independência e não quero limitar minhas possibilidades e meus sonhos tendo filhos agora.” Tem muita gente que olha torto para esta opção dela. A família pressiona, cobra dela uma postura diferente. As expectativas sociais são totalmente discrepantes dos sonhos e opções de vida dela. No outro extremo, eu tenho amigas que se casaram e tiveram filhos e são muito felizes assim. Algumas delas, eu acho que realmente estão felizes. Por pura sorte, os sonhos delas (condicionados, questionados ou não) coincidiram com as expectativas sociais. Outras, eu tenho a impressão de estarem se convencendo de que estão felizes por estarem fazendo o que “deveriam” fazer. Mas lá no fundo, estão gritando. Ou estão em completa negação.

Eu acho que não tem nada de errado com as pessoas que optam por vidas não convencionais (não que tenha algo de errado com as pessoas que vivem vidas mais convencionais, desde que estejam realmente felizes fazendo isso). Aliás, acho que estas pessoas estão mais conscientes sobre suas próprias vidas do que a maioria de nós (sim, estou me incluindo) que sofreu uma lavagem cerebral massificada e nem percebe que seus sonhos são produto direto de condicionamentos sociais. E o mais absurdo disso tudo é que nós mesmos alimentamos o próprio sistema, toda vez que julgamos alguém por fazer opções diferentes das nossas ou das esperadas.

Eu passei por uma experiência enriquecedora que me mostrou isso claramente. Vai, com certeza, passar por aqui o Marcelo, que passou por esta experiência comigo e não me deixa mentir:

Vou contextualizar primeiro: Eu nasci e morei em São Paulo até meus 30 anos. Fiz faculdade, fiz um MBA, trabalhei em agências (sim, na época este era realmente meu sonho). Depois de um certo ponto, já casada há alguns anos, eu notei que aquilo não fazia mais sentido pra mim. O estilo de vida que eu levava, muito embora estivesse até certo ponto de acordo com as expectativas que eu tinha criado pra mim mesma e condizente com as expectativs sociais, simplesmente não fazia mais sentido. Eu ia trabalhar me sentindo desmotivada, estava cansada o tempo todo (esgotada seria mais apropriado), minha vida social e familiar estava reduzida a zero, minha saúde estava reclamando, a falta de sensação de segurança estava me incomodando profundamente - e passar por tudo isso, já não estava mais valendo a pena. Então, como casal na época, eu e o Marcelo colocamos tudo isso na balança e tomamos a difícil decisão de largar tudo e sair de São Paulo - não só sair de São Paulo, mas ir para uma cidade de 70 mil habitantes no interior de SP. Sim, foi uma decisão difícil. Largar pra trás tudo o que você construiu profissional e socialmente (estou falando das amizades relevantes que a gente faz) é algo que demanda uma certa coragem. Mas, nós fizemos.

E agora é que vem a parte enriquecedora da história: nós avisamos as pessoas (amigos, conhecidos, colegas de trabalho, etc…) que estávamos nos mudando. A reação das pessoas foi diversa, mas a maioria demonstrou estranhamento, choque e coisas similares: “Nossa, sério?? Vocês têm certeza que querem mesmo fazer isso? Não é uma decisão meio drástica?” Este tipo de reação, por si só, já ilustra um pouco o que eu estava falando sobre expectativas sociais. Mas o mais incrível ainda estava por vir: esta mudança de vida nos mostrou claramente quem eram as pessoas realmente amigas e as que não eram. Algumas pessoas com quem tínhamos um contato social relativamente próximo simplesmente DESAPARECERAM do nosso contato, da nossa vida. E numa velocidade assustadora. Por que? Porque simplesmente deixamos de fazer parte do contexto de vida “aceitável” na visão delas. Teoricamente deixamos de pertencer ao grupo de “contatos profissionais importantes” e outras coisas do gênero que nem vou me dar ao trabalho de citar. Mas o fato é que, para nós, isso serviu para separar o joio do trigo e nos mostrou o quanto as opções não convencionais causam estranhamento nos cérebros condicionados de forma massificada. Os amigos que eram realmente amigos, mantiveram contato, vieram nos visitar, etc. Os que não eram, sumiram. E reapareceram em momentos que lhes foram oportunos ou quando perceberam que, mesmo estando em outra cidade, não tínhamos exatamente deixado de ser “contatos profissionais” que lhes poderiam ser úteis - ou seja, quando a nossa opção menos convencional se contextualizou novamente para eles. Acordaram um dia, lavaram o rosto com óleo de peroba e resolveram resgatar os vínculos. Too late… (Um parênteses aqui, embora não tenha a ver com o foco do post, mas só pra esclarecer: não é que eu ache que contatos profissionais não sejam importantes. São e todos nós temos. O que é feio é posar de amigo e depois tratar exclusivamente como contato profissional. As relações precisam ser claras.)

Mas enfim, voltando ao foco… Eu acho que este questionamento sobre sonhos é fundamental - ou ao menos deveria ser para a maioria das pessoas, ou ao menos para aquelas que não querem viver a vida em negação ou em estado de alienação. Não é o único que considero importante, mas é o objeto deste post. Se preferir, ao invés de olhar pra isso como “sonhos”, pense em “o que é realmente importante pra você - o que, ao final da sua vida, te traria a sensação de paz, de satisfação, uma vida realizada?”. Eu ando fazendo este questionamento. Não é à toa que a minha lista de 101 Coisas não está completa. Tento separar a parte de mim que quer coisas (que não são exatamente “coisas”) porque estou condicionada a querer ou achar que quero, que quer coisas porque as opiniões de pessoas supostamente felizes indicam caminhos teoricamente também com maior potencial de felicidade, da parte de mim que tem sonhos autênticos. Qualquer pessoa que já tenha passado por este nível de questionamento vai concordar comigo que esta não é uma tarefa fácil. Porque o próprio pensamento, o próprio raciocínio está também condicionado.

Mas uma coisa é certa: eu não quero viver minha vida deixando que a sociedade faça decisões por mim. A vida é muito curta para gastarmos nos enganando, permanecendo deliberadamente cegos com relação à nossa realidade, sem sequer jamais nos questionarmos sobre o que REALMENTE, lá no fundo, nos faz ou nos faria felizes. Eu já vivi boa parte da minha vida fazendo opções convencionais. Já me sinto suficientemente satisfeita - e insatisfeita - por trilhar os caminhos mais percorridos. E já fiz também opções menos convencionais e conheço as conseqüências. E hoje, penso que não há nada pior do que viver alienado, conformado com uma vida que lá no fundo não te faz feliz, mas você não tem coragem para mudar - seja porque você já investiu muito tempo nesta opção, ou porque tem medo das conseqüências, ou porque a sociedade vai te olhar torto se você fizer uma opção diferente. Se você olhar pra dentro de si mesmo, sendo verdadeiramente honesto e enxergar que suas opções de vida e sua situação atual estão em conformidade com seus sonhos REAIS (não condicionados), mesmo que eles por sorte coincidam com expectativas alheias, excelente. Parabéns, você é realmente feliz. No entanto, se você encontrar dissincronicidades, reavalie seus sonhos. Penso que ninguém deveria viver conformado em aceitar sonhos e expectativas alheias. Viva os seus!

Muito embora eu ainda esteja passando por este processo de auto-conhecimento (não é a primeira vez, diga-se de passagem) e, mais importante, de auto-conscientização, eu já tomei algumas decisões recentemente que muitas pessoas não compreendem. Estou prestes a tomar outras que talvez sejam ainda menos compreendidas. E também tomei “quase-decisões” no início do primeiro semestre que me abriram os olhos para toda esta questão. E, por incrível que pareça, eu posso dizer que, no meu caso especificamente, duas coisas estão se tornando claras:

1. Quanto menos convencionais meus sonhos, quanto mais as pessoas se espantam ou me questionam, mais isso se torna um indicativo de que eu estou no caminho certo.

2. Quanto mais eu percebo que estou no caminho certo, maior é a sensação de liberdade e controle que sinto sobre minha própria vida.

E no fim, é só isso que importa. O mundo todo pode discordar das suas opções, mas se você estiver em paz com elas e elas não estiverem prejudicando ninguém deliberadamente, todo o resto é irrelevante. Por outro lado, se você não estiver feliz com as suas opções mas continuar convivendo com elas porque o resto do mundo acha que é assim que as coisas têm que ser, ou porque você está por demais acomodado ou tem medo da mudança, no fim a frustração vai continuar sendo sempre e exclusivamente sua. E se você acha que está feliz, mas nunca fez nenhum tipo de questionamento, então corre o risco de estar vivendo de forma alienada e um belo dia acordar e ver que desperdiçou anos acomodado em uma situação dissincronizada dos seus verdadeiros sonhos e valores. Então, a idéia aqui é: questione e tenha coragem para mudar, se for o caso.

Uma pessoa muito querida, conversando comigo certa ocasião, me deu uma opinião (ou melhor, um conselho) quando eu disse estar em dúvida sobre uma decisão que tinha que tomar, que acho que ilustra um pouco o que falei. Esta pessoa me disse: “Siga o caminho menos trilhado”. Na hora, me pareceu uma resposta inusitada. E depois ficou na minha cabeça. Me relembrou a importância de questionarmos os caminhos seguros que em geral tendemos a escolher.

Vou terminar com uma citação que li em um dos posts do blog que mencionei no inicio:

Whatever you do, you need courage. Whatever course you decide upon, there is always someone to tell you that you are wrong. There are always difficulties arising that tempt you to believe your critics are right. To map out a course of action and follow it to an end requires some of the same courage that a soldier needs. Peace has its victories, but it takes brave men and women to win them.
- Ralph Waldo Emerson

Tradução:
O que quer que você faça, você precisa de coragem. Qualquer curso que você decida seguir, sempre há alguém para lhe dizer que você está errado. Sempre há dificuldades surgindo que lhe tentam a acreditar que seus críticos estão certos. Mapear um curso de ação e seguí-lo até o fim requer um pouco da mesma coragem que um soldado precisa. Paz tem suas vitórias, mas são precisos homens e mulheres corajosos para conquistá-las.

Eu sei que tenho vários leitores que partilham da minha “mania de filosofar”, então, filósofos de plantão, deixem suas opiniões, por favor. E pra você que leu este post na íntegra (ufa!), “filósofo” ou não, me diga: você já fez este tipo de questionamento?