Mon 21 May 2007
Mulher Multifuncional
Postado às 2:48 am | Categoria: Blogs e blogosfera , Filosofando , Opinião , Trabalho[12] Comentários
Interessante… Quando alguém me pergunta “o que eu faço”, sempre tenho dificuldades em responder. Por que? Porque eu faço muitas coisas. Porque diversidade é essencial para mim. Porque o tipo de diversidade que eu busco – e vivencio – profissionalmente não cabe dentro de um cargo (ou de um emprego, a propósito – o que é um dos motivos, aliás, pelos quais eu não tenho um). Pra mim, não existe resposta simples para esta pergunta.
Pra começo de conversa, muito embora este tipo de pergunta seja comum, especialmente quando se conhece alguém novo (é um tópico iniciador de conversas), na nossa sociedade as pessoas se definem muito (e definem os outros também) pelo seu emprego ou atividade profissional. “Sou engenheiro/advogada/arquiteto/consultor/professora/empresário” etc, etc, etc… Se por um lado isso tem um propósito, até certo ponto compreensível, acho que extrapolamos o propósito e damos valor demais a estes rótulos, como se fossem a coisa mais importante sobre uma pessoa.
Outro dia alguém me deixou um scrap no Orkut e eu fui olhar o perfil da pessoa. Lá tinha uma frase que dizia:
“Poderia dizer aqui tudo o que eu já fiz e deixei de fazer profissionalmente, mas aprendi a não mais atrelar meu ego ao meu trabalho. Eu não sou o que eu faço, eu sou o que eu sou.”
Isso sintetiza tão bem o que eu penso sobre este assunto que até deixei um comentário. As pessoas são muito mais – e muito mais interessantes – do que o cargo que ocupam, do que o rótulo que vem com o cargo. Até porque, a vida profissional é apenas uma face de cada indivíduo.
Eu e o Marcelo costumávamos conversar sobre isso às vezes; você liga em qualquer lugar e a conversa costuma seguir este padrão:
- Boa tarde, gostaria de falar com “fulano” por favor.
- Pois não, quem está falando?
- Patricia.
- Patricia de onde? (esprando que você se identifique através de um cargo e uma empresa.)
De novo, existe um motivo perfeitamente razoável para isso, identificar propriamente a pessoa antes de passar a ligação. No entanto, o que acaba ficano implícito é que você TEM que ser de algum lugar, de alguma empresa. Não existe o indivíduo, existe o indivíduo vinculado a uma empresa e a um cargo. Experimente dizer “de lugar nenhum, sou só a Patricia”. A pessoa do outro lado fica completamente perdida. Acreditem, eu já tentei. A reação é sempre algo como: “………. Mas… de onde exatamente?”
Eu e o Marcelo costumávamos brincar, criando respostas criativas e engraçadas para a pergunta. Mas no fundo, eu não vejo graça nenhuma nisso. Acho absurdo que tenhamos chegado a um ponto em que o rótulo é mais valorizado que o indivíduo. E não me digam que não é – experimentem se apresentar como “a assistente da Diretora bam-bam-bam”, depois ligue de novo e se apresente como “a diretora bam-bam-bam em pessoa”. Até o tratamento será diferente.
Não quero dizer com isso que estes rótulos não tenham seu valor. Se uma pessoa ocupa determinado cargo, em geral (em geral!) isso é representativo de um nível de conhecimento e experiência correspondentes (nem sempre isso é verdade, mas vamos considerar que seja) e, evidentemente, isso tem valor. O problema é que não é nisso que colocamos o foco, não pensamos que a pessoa tem determinado cargo porque percorreu um caminho de crescimento. Ao invés disso, a percepção é de que a pessoa é importante/ganha bem/etc. Esta pessoa é “respeitada” pelas cifras no contra-cheque, quando deveria ser respeitada pelo valor de seu conhecimento e experiência. É uma diferença sutil de ser percebida, mas representa uma diferença enorme na prática. É um reflexo de valores sociais – e são exatamente estes valores que estou questionando.
Mas voltando à pergunta “O que você faz?”, até a época em que eu trabalhava em agências, era fácil de responder: “Sou gerente de projetos numa agência de internet” – ou algo do tipo que correspondesse ao meu cargo na época. Mas depois que eu optei por sair do mundo corporativo e passei a fazer um monte de coisas diferentes, responder esta pergunta se tornou um problema. A resposta mais simples possível é “trabalho com internet”. Pra quem não entende nada de internet, esta resposta costuma ser suficiente (porém, um tanto quanto vaga, deixando um ar de interrogação na cara da pessoa) e para aqueles que entendem do “babado”, se querem entrar em detalhes, aí eu entro. Ainda assim a pessoa fica meio perdida, porque eu faço muitas coisas diferentes.
Exemplos práticos desta situação:
- Nas vezes em que dei alguma entrevista. Já aconteceu mais de uma vez. Na matéria o jornalista tem que identificar a pessoa entrevistada, então naturalmente faz esta pergunta. Eu já saí na mídia identificada como várias coisas difrentes. Se daqui a cem anos algum doido sem ter nada melhor pra fazer resolver pesquisar para saber quem eu era e o que fazia, baseando-se nas coisas que foram publicadas sobre mim, este coitado vai ficar bem confuso! rs
- Outro dia fui atualizar meu perfil no LinkedIn, onde TODO MUNDO tem um
rótulo(ahem), digo, cargo. Pensei comigo “Que diabos, o que é que eu vou escrever aqui?” Finalmente, escrevi assim (em inglês): “Eu não quero um rótulo. E não preciso de um. Mas se você precisa, dê uma olhada na minha experiência e escolha o que quiser.”
E é bem isso. Tem gente que precisa destes rótulos, para si próprio e para os outros. Eu não quero e nem preciso de um rótulo para definir quem eu sou. E estou muito bem assim, obrigada. Tirando a dificuldade de responder algumas perguntas, isso não muda em nada minha vida. Ah sim, e para tirar visto para os Estados Unidos isso também, aparentemente, atrapalha um pouco. (hehe) Tudo perfeitamente contornável.
E tem mais, eu acho que se definir através de um rótulo é altamente restritivo. Como já dizia Lao Tse, “When I let go of what I am, I become what I might be.” (“Quando eu me desprendo de quem eu sou, eu me transformo em quem eu posso ser.”). (Aliás, precisamos de um rótulo para identificar Lao Tse? Acho que não, né?) É este tipo de liberdade que eu quero para a minha vida: ser o que eu quiser, no momento em que eu quiser, com direito a mudar de idéia, de evoluir, de crescer, de tentar coisas novas quando as antigas não me fazem mais sentido.
No entanto, pela primeira vez eu encontrei um rótulo capaz de me definir. Eu não preciso dele, mas seria um bom título para colocar no meu perfil do LinkedIn.
Explico: outro dia achei um post em um blog (tive que remover o link porque o domínio que era antes um blog hospeda agora um site “pouco familiar” – rs) falando sobre mim e comentando sobre este post que escrevi. Gino Netto escreve:
“Em 1995 eu tinha exatos 22 anos e nem me imaginava trabalhando com informática. Talvez fosse melhor nunca ter imaginado… Mas desde essa época a Patrícia Muller já navegava pela Internet. Essa mulher é uma multifuncional. (…)”
Gino, se você passar por aqui, meus agradecimentos. Você foi a primeira pessoa no mundo capaz de me definir profissionalmente em uma palavra! Coisa que nem eu mesma consegui! Ah, sim, e gostei também do post falando sobre os termos de buscas que levaram pessoas ao seu blog.
Perfeito! A partir de hoje, para todos os que precisam de um rótulo, eu sou a “Mulher Multifuncional”.
Para os demais, eu sou a Patricia, Patty para os íntimos.
E vamos em frente, porque como “Mulher Multifuncional” eu tenho um tanto de coisas a fazer.
Boa semana para todos!




