Filosofando


Interessante… Quando alguém me pergunta “o que eu faço”, sempre tenho dificuldades em responder. Por que? Porque eu faço muitas coisas. Porque diversidade é essencial para mim. Porque o tipo de diversidade que eu busco – e vivencio – profissionalmente não cabe dentro de um cargo (ou de um emprego, a propósito – o que é um dos motivos, aliás, pelos quais eu não tenho um). Pra mim, não existe resposta simples para esta pergunta.

Pra começo de conversa, muito embora este tipo de pergunta seja comum, especialmente quando se conhece alguém novo (é um tópico iniciador de conversas), na nossa sociedade as pessoas se definem muito (e definem os outros também) pelo seu emprego ou atividade profissional. “Sou engenheiro/advogada/arquiteto/consultor/professora/empresário” etc, etc, etc… Se por um lado isso tem um propósito, até certo ponto compreensível, acho que extrapolamos o propósito e damos valor demais a estes rótulos, como se fossem a coisa mais importante sobre uma pessoa.

Outro dia alguém me deixou um scrap no Orkut e eu fui olhar o perfil da pessoa. Lá tinha uma frase que dizia:

“Poderia dizer aqui tudo o que eu já fiz e deixei de fazer profissionalmente, mas aprendi a não mais atrelar meu ego ao meu trabalho. Eu não sou o que eu faço, eu sou o que eu sou.”

Isso sintetiza tão bem o que eu penso sobre este assunto que até deixei um comentário. As pessoas são muito mais – e muito mais interessantes – do que o cargo que ocupam, do que o rótulo que vem com o cargo. Até porque, a vida profissional é apenas uma face de cada indivíduo.

Eu e o Marcelo costumávamos conversar sobre isso às vezes; você liga em qualquer lugar e a conversa costuma seguir este padrão:

- Boa tarde, gostaria de falar com “fulano” por favor.
- Pois não, quem está falando?
- Patricia.
- Patricia de onde? (esprando que você se identifique através de um cargo e uma empresa.)

De novo, existe um motivo perfeitamente razoável para isso, identificar propriamente a pessoa antes de passar a ligação. No entanto, o que acaba ficano implícito é que você TEM que ser de algum lugar, de alguma empresa. Não existe o indivíduo, existe o indivíduo vinculado a uma empresa e a um cargo. Experimente dizer “de lugar nenhum, sou só a Patricia”. A pessoa do outro lado fica completamente perdida. Acreditem, eu já tentei. A reação é sempre algo como: “………. Mas… de onde exatamente?”

Eu e o Marcelo costumávamos brincar, criando respostas criativas e engraçadas para a pergunta. Mas no fundo, eu não vejo graça nenhuma nisso. Acho absurdo que tenhamos chegado a um ponto em que o rótulo é mais valorizado que o indivíduo. E não me digam que não é – experimentem se apresentar como “a assistente da Diretora bam-bam-bam”, depois ligue de novo e se apresente como “a diretora bam-bam-bam em pessoa”. Até o tratamento será diferente.

Não quero dizer com isso que estes rótulos não tenham seu valor. Se uma pessoa ocupa determinado cargo, em geral (em geral!) isso é representativo de um nível de conhecimento e experiência correspondentes (nem sempre isso é verdade, mas vamos considerar que seja) e, evidentemente, isso tem valor. O problema é que não é nisso que colocamos o foco, não pensamos que a pessoa tem determinado cargo porque percorreu um caminho de crescimento. Ao invés disso, a percepção é de que a pessoa é importante/ganha bem/etc. Esta pessoa é “respeitada” pelas cifras no contra-cheque, quando deveria ser respeitada pelo valor de seu conhecimento e experiência. É uma diferença sutil de ser percebida, mas representa uma diferença enorme na prática. É um reflexo de valores sociais – e são exatamente estes valores que estou questionando.

Mas voltando à pergunta “O que você faz?”, até a época em que eu trabalhava em agências, era fácil de responder: “Sou gerente de projetos numa agência de internet” – ou algo do tipo que correspondesse ao meu cargo na época. Mas depois que eu optei por sair do mundo corporativo e passei a fazer um monte de coisas diferentes, responder esta pergunta se tornou um problema. A resposta mais simples possível é “trabalho com internet”. Pra quem não entende nada de internet, esta resposta costuma ser suficiente (porém, um tanto quanto vaga, deixando um ar de interrogação na cara da pessoa) e para aqueles que entendem do “babado”, se querem entrar em detalhes, aí eu entro. Ainda assim a pessoa fica meio perdida, porque eu faço muitas coisas diferentes.

Exemplos práticos desta situação:

  1. Nas vezes em que dei alguma entrevista. Já aconteceu mais de uma vez. Na matéria o jornalista tem que identificar a pessoa entrevistada, então naturalmente faz esta pergunta. Eu já saí na mídia identificada como várias coisas difrentes. Se daqui a cem anos algum doido sem ter nada melhor pra fazer resolver pesquisar para saber quem eu era e o que fazia, baseando-se nas coisas que foram publicadas sobre mim, este coitado vai ficar bem confuso! rs
  2. Outro dia fui atualizar meu perfil no LinkedIn, onde TODO MUNDO tem um rótulo (ahem), digo, cargo. Pensei comigo “Que diabos, o que é que eu vou escrever aqui?” Finalmente, escrevi assim (em inglês): “Eu não quero um rótulo. E não preciso de um. Mas se você precisa, dê uma olhada na minha experiência e escolha o que quiser.”

E é bem isso. Tem gente que precisa destes rótulos, para si próprio e para os outros. Eu não quero e nem preciso de um rótulo para definir quem eu sou. E estou muito bem assim, obrigada. Tirando a dificuldade de responder algumas perguntas, isso não muda em nada minha vida. Ah sim, e para tirar visto para os Estados Unidos isso também, aparentemente, atrapalha um pouco. (hehe) Tudo perfeitamente contornável.

E tem mais, eu acho que se definir através de um rótulo é altamente restritivo. Como já dizia Lao Tse, “When I let go of what I am, I become what I might be.” (“Quando eu me desprendo de quem eu sou, eu me transformo em quem eu posso ser.”). (Aliás, precisamos de um rótulo para identificar Lao Tse? Acho que não, né?) É este tipo de liberdade que eu quero para a minha vida: ser o que eu quiser, no momento em que eu quiser, com direito a mudar de idéia, de evoluir, de crescer, de tentar coisas novas quando as antigas não me fazem mais sentido.

No entanto, pela primeira vez eu encontrei um rótulo capaz de me definir. Eu não preciso dele, mas seria um bom título para colocar no meu perfil do LinkedIn. :-) Explico: outro dia achei um post em um blog (tive que remover o link porque o domínio que era antes um blog hospeda agora um site “pouco familiar” – rs) falando sobre mim e comentando sobre este post que escrevi. Gino Netto escreve:

“Em 1995 eu tinha exatos 22 anos e nem me imaginava trabalhando com informática. Talvez fosse melhor nunca ter imaginado… Mas desde essa época a Patrícia Muller já navegava pela Internet. Essa mulher é uma multifuncional. (…)”

Gino, se você passar por aqui, meus agradecimentos. Você foi a primeira pessoa no mundo capaz de me definir profissionalmente em uma palavra! Coisa que nem eu mesma consegui! Ah, sim, e gostei também do post falando sobre os termos de buscas que levaram pessoas ao seu blog. ;-)

Perfeito! A partir de hoje, para todos os que precisam de um rótulo, eu sou a “Mulher Multifuncional”. :-) Para os demais, eu sou a Patricia, Patty para os íntimos.

E vamos em frente, porque como “Mulher Multifuncional” eu tenho um tanto de coisas a fazer. ;-)

Boa semana para todos!

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Whether you think you can,  or can’t, either way you’re right.
(Se você pensa que você pode, ou se você pensa que não pode, de qualquer forma você está certo.)

Henry Ford.

Recebi ontem um email da Giorgia falando sobre a “Missão 1017″ (Mission 1017) – post lá no blog dela.

“Trata-se de um processo chamado “abertura cósmica”, no qual basicamente, raios de alta dimensão do Universo cruzarão a rota da Terra. O efeito será a ampliação de nossos pensamentos e emoções na intensidade de um milhão de vezes, ou seja, mentalizar coisas positivas terão grande chance de materialização. ” – Leia sobre a Missão 1017 na íntegra aqui.

Se isso é ou não verdade, simplesmente não importa. Fato é, que esta história se espalhou pela internet e por causa disso, hoje, milhões de pessoas no mundo inteiro estarão focando seus pensamentos em coisas positivas, para si próprias e para o mundo.

“Nossos pensamentos criam a nossa realidade”. “Nossos pensamentos dominantes encontram uma forma de se manifestar na nossa realidade”. “A mental disposition will attract equivalent external circumstances and events. – Uma disposição mental irá atrair circunstâncias e eventos externos equivalentes”. “Every thought is creative – Todo pensamento é criativo”. – estas frases descrevem a base da Lei da Atração (Law of Attraction, mais aqui), um princípio que a física quântica começa a explicar. Se você nunca leu sobre isso, procure ler, porque é muito interessante, para dizer o mínimo. A tal “Missão 1017″, ao que parece, toma por base este princípio da Lei da Atração (e na verdade, eu só aproveitei o fato de que este “evento” supostamente ocorre hoje para falar sobre a Lei da Atração, já que vai ter gente à beça buscando sobre isso hoje).

Quem já teve qualquer tipo de conversa filosófica comigo deve estar estranhando este post: eu sou uma pessoa racional, que busca explicações lógicas para as coisas. Por causa disso tenho problemas, por exemplo, com religiões dogmáticas. Igualmente, não compro aquelas idéias motivacionais de livros de auto-ajuda e coisas similares. Em resumo, sou uma pessoa essencialmente cética por princípio. Mas a Lei da Atração não tem nada a ver com religião ou motivação pessoal. Eu comecei a me interessar por este assunto quando comecei a encontrar pessoas igualmente – ou mais – céticas e inteligentes do que eu discutindo sobre isso, incluindo filósofos e físicos quânticos – e quanto mais me aprofundo no assunto, mais interessada fico. Ontem, coincidentemente, assisti o filme/documentário chamado “‘The Secret“, que fala sobre a Lei da Atração (custa US$ 4.95 para assistir em streaming, o site vende também o DVD, mas alguém já colocou o filme no You Tube dividido em várias partes e legendado em português – veja do lado direito as seqüências. UPDATE: quem quiser ver o filme completo e de graça, tem aqui, bem melhor que o do You Tube, que está dividido em vários vídeos, e com melhor qualidade.). O filme explica o princípio da Lei da Atração num formato de documentário, narrado por filósofos, físicos quânticos, autores, etc. Vale a pena assistir.

O Marcelo, que é tão cético quanto eu (talvez mais) costuma dizer que algumas coisas, embora não tenham nenhum fundamento lógico, simplesmente funcionam (ele costuma citar algumas teorias Freudianas como exemplo). Na minha curta experiência (intencional, pelo menos) com a Lei da Atração (aproximadamente um mês), posso dizer que ela é uma destas coisas e os resultados simplesmente desafiam minha mente cética – muito embora exista, sim, um fundamento relativamente lógico para isso (através da física quântica), ainda que pressuponha a “fé” como componente (não no sentido religioso, lembram da frase no filme “The Matrix“, onde Morpheous diz ao Neo “Don’t think you are. KNOW you are.” – “não pense que você é, SAIBA que você é.”? – é a este tipo de fé que me refiro), pois se você nutre o pensamento de que a Lei da Atração é besteira e que seus pensamentos não encontram uma forma de se materializar, é isso que você acaba manifestando na sua vida. Se você não acredita que este pensamento que está na sua cabeça neste exato momento está moldando seu futuro de alguma forma, ainda assim a Lei da Atração estará em ação, mas você vai atrair eventos para a sua vida que serão congruentes com esta sua crença, reforçando o que você já pensa, criando um círculo vicioso. Você é o que você pensa – e sente. Não acredita? Experimente adotar uma postura verdadeiramente positiva, reprimindo todo e qualquer pensamento negativo que vier à sua mente, substituindo-os por positivos, por um período de uma semana e observe se a realidade à sua volta não começa a se alinhar com esta postura. Faça o contrário e observe se você não acaba entrando em uma espiral cíclica que se auto-alimenta de negativismo. (Se você for uma pessoa questionadora como eu e tiver um lado filósofo, vai também questionar a natureza da própria realidade. Se este é o caso e você quiser se aprofundar neste assunto, escute o podcast “The true nature of reality” – em inglês. Já adianto, prepare-se para ouvir algo bem estranho, no estilo “The Matrix” – mas sem dúvida nenhuma interessante. O podcast sugere um modelo de realidade baseado na Lei da Atração.)

Mesmo que você não “compre” a idéia, falando de uma forma geral, ser uma pessoa com atitude e pensamentos positivos não faz mal a ninguém. Ficar alimentando pensamentos negativos é auto-enfraquecedor. Como diz a frase de Henry Ford no início do post, se você pensa que pode ou se você pensa que não pode, de qualquer forma está certo. As grandes conquistas e realizações através da história foram feitas por pessoas que acreditaram que estas coisas eram possíveis, não por pessoas que ficaram pensando “isso é impossível ou muito difícil, nem vale a pena tentar”.

Há muitos anos eu li uma citação muito interessante que diz o seguinte:

Watch your thoughts; they become words.
Watch your words; they become actions.
Watch your actions; they become habits.
Watch your habits; they become character.
Watch your character; it becomes your destiny.
(Frank Outlaw)
Cuide dos seus pensamentos; eles se tornam palavras.
Cuide das suas palavras; elas se tornam ações.
Cuide das suas ações; elas se tornam hábitos.
Cuido dos seus hábitos; eles se tornam seu caráter.
Cuide do seu caráter; ele se torna seu destino.

Pra mim isso faz muito sentido. Lei da Atração ou não, o que você pensa influencia, na pior das hipóteses, suas ações. Então o mínimo que você pode fazer por si próprio(a) é cuidar com carinho dos pensamentos que nutre, para que eles moldem suas ações (e, conseqüentemente, sua realidade) de uma forma positiva.

Então, aproveitando a onda da tal Missão 1017, quer ela seja verdade ou a maior baboseira dos últimos tempos, aproveite o dia de hoje para focar seus pensamentos em coisas boas e positivas para você e para a humanidade. Se uma “onda cósmica” ampliar a possibilidade e a velocidade de materialização dos seus melhores pensamentos, que bom, né? (rs) Mas, se isso for só uma “onda de hoax”, na pior das hipóteses você não tem nada a perder e vai passar um dia mais positivo. Ou você pode começar a testar a Lei da Atração. ;-)

Paz e amor e um bom dia pra todo mundo. :-)

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Já há algum tempo, eu venho lendo alguns artigos e ouvindo alugns podcasts de um blog que não vou mencionar agora, porque vou indicá-lo amanhã no meu post do BlogDay. Mas este blog fala de desenvolvimento e crescimento pessoal. Não, não aquelas baboseiras de auto-ajuda. O autor do blog oferece perspecivas pouco convencionais, cheias de insights, de um ponto de vista que por enquato vou chamar de filosófico – por falta de uma palavra melhor. É um prato cheio pra mim, que normalmente já gosto deste tipo de coisa (abordagens filosóficas), mas ultimamente estes textos e podcsts estão muito em sinergia com o momento que estou vivendo e me ajudando a fazer questionamentos importantes.

Eu já ensaiei mil vezes pra começar um post falando não só sobre este blog, mas sobre os assuntos que ele aborda. E hoje, lendo um dos artigos, fiquei pensando em algo e resolvi escrever este post.

Vou começar com uma pergunta: você é o tipo de pessoa que vai atrás dos seus sonhos? Antes de responder esta pergunta, pense em outra: quais exatamente são seus sonhos e até que ponto eles são autênticos ou condicionados pela nossa sociedade e pela nossa cultura? Vou dar um exemplo: se você sonha em casar e ter filhos, já parou pra pensar se isso é algo que você realmente quer ou se você foi tão condicionado(a) desde pequeno(a) a pensar que este é o desenvolvimento “natural” da vida, que inconscientemente você acabou abraçando este “sonho” como sendo seu, quando, na verdade, pode até ser que, sem este condicionamento, você jamais pensaria nesta possibilidade? Ou então, será que você não está tão imerso nas expectativas sociais que sequer considerar a possibilidade de não se casar e ter filhos lhe parece fora demais de contexto para que você tenha a coragem de optar por uma vida menos convencional?

Nós, seres sociais, em geral olhamos com uma certa desconfiança para aqueles que optam (não se acomodam, OPTAM) por estilos de vida diferentes da maioria e tendemos a “achar” que há algo de errado com estas pessoas. Se alguém não se casa ou não quer casar, é porque tem medo ou dificuldades em relacionamentos, por exemplo. Enquanto isso pode ser verdade em alguns casos, nunca paramos para pensar que isso pode ser uma escolha consciente e baseada em coisas que nada têm a ver com medos ou inabilidades pessoais. E provavelmente tendemos a pensar desta forma, porque isso nos dá uma falsa sensação de conforto de que os certos somos nós, vivendo nossas opções conformistas e condicionadas.

Ainda este fim-de-semana estava conversando com uma prima que tem 29 anos. Ela namora, mas mora sozinha, é independente, tem a vida dela. E me disse: “Patty, eu não quero casar ou ter filhos, pelo menos não por enquanto. Pode ser que isso mude um dia, mas por enquanto estou bem e feliz como estou. Não quero dividir meu espaço com outra pessoa, não quero abrir mão da minha independência e não quero limitar minhas possibilidades e meus sonhos tendo filhos agora.” Tem muita gente que olha torto para esta opção dela. A família pressiona, cobra dela uma postura diferente. As expectativas sociais são totalmente discrepantes dos sonhos e opções de vida dela. No outro extremo, eu tenho amigas que se casaram e tiveram filhos e são muito felizes assim. Algumas delas, eu acho que realmente estão felizes. Por pura sorte, os sonhos delas (condicionados, questionados ou não) coincidiram com as expectativas sociais. Outras, eu tenho a impressão de estarem se convencendo de que estão felizes por estarem fazendo o que “deveriam” fazer. Mas lá no fundo, estão gritando. Ou estão em completa negação.

Eu acho que não tem nada de errado com as pessoas que optam por vidas não convencionais (não que tenha algo de errado com as pessoas que vivem vidas mais convencionais, desde que estejam realmente felizes fazendo isso). Aliás, acho que estas pessoas estão mais conscientes sobre suas próprias vidas do que a maioria de nós (sim, estou me incluindo) que sofreu uma lavagem cerebral massificada e nem percebe que seus sonhos são produto direto de condicionamentos sociais. E o mais absurdo disso tudo é que nós mesmos alimentamos o próprio sistema, toda vez que julgamos alguém por fazer opções diferentes das nossas ou das esperadas.

Eu passei por uma experiência enriquecedora que me mostrou isso claramente. Vai, com certeza, passar por aqui o Marcelo, que passou por esta experiência comigo e não me deixa mentir:

Vou contextualizar primeiro: Eu nasci e morei em São Paulo até meus 30 anos. Fiz faculdade, fiz um MBA, trabalhei em agências (sim, na época este era realmente meu sonho). Depois de um certo ponto, já casada há alguns anos, eu notei que aquilo não fazia mais sentido pra mim. O estilo de vida que eu levava, muito embora estivesse até certo ponto de acordo com as expectativas que eu tinha criado pra mim mesma e condizente com as expectativs sociais, simplesmente não fazia mais sentido. Eu ia trabalhar me sentindo desmotivada, estava cansada o tempo todo (esgotada seria mais apropriado), minha vida social e familiar estava reduzida a zero, minha saúde estava reclamando, a falta de sensação de segurança estava me incomodando profundamente – e passar por tudo isso, já não estava mais valendo a pena. Então, como casal na época, eu e o Marcelo colocamos tudo isso na balança e tomamos a difícil decisão de largar tudo e sair de São Paulo – não só sair de São Paulo, mas ir para uma cidade de 70 mil habitantes no interior de SP. Sim, foi uma decisão difícil. Largar pra trás tudo o que você construiu profissional e socialmente (estou falando das amizades relevantes que a gente faz) é algo que demanda uma certa coragem. Mas, nós fizemos.

E agora é que vem a parte enriquecedora da história: nós avisamos as pessoas (amigos, conhecidos, colegas de trabalho, etc…) que estávamos nos mudando. A reação das pessoas foi diversa, mas a maioria demonstrou estranhamento, choque e coisas similares: “Nossa, sério?? Vocês têm certeza que querem mesmo fazer isso? Não é uma decisão meio drástica?” Este tipo de reação, por si só, já ilustra um pouco o que eu estava falando sobre expectativas sociais. Mas o mais incrível ainda estava por vir: esta mudança de vida nos mostrou claramente quem eram as pessoas realmente amigas e as que não eram. Algumas pessoas com quem tínhamos um contato social relativamente próximo simplesmente DESAPARECERAM do nosso contato, da nossa vida. E numa velocidade assustadora. Por que? Porque simplesmente deixamos de fazer parte do contexto de vida “aceitável” na visão delas. Teoricamente deixamos de pertencer ao grupo de “contatos profissionais importantes” e outras coisas do gênero que nem vou me dar ao trabalho de citar. Mas o fato é que, para nós, isso serviu para separar o joio do trigo e nos mostrou o quanto as opções não convencionais causam estranhamento nos cérebros condicionados de forma massificada. Os amigos que eram realmente amigos, mantiveram contato, vieram nos visitar, etc. Os que não eram, sumiram. E reapareceram em momentos que lhes foram oportunos ou quando perceberam que, mesmo estando em outra cidade, não tínhamos exatamente deixado de ser “contatos profissionais” que lhes poderiam ser úteis – ou seja, quando a nossa opção menos convencional se contextualizou novamente para eles. Acordaram um dia, lavaram o rosto com óleo de peroba e resolveram resgatar os vínculos. Too late… (Um parênteses aqui, embora não tenha a ver com o foco do post, mas só pra esclarecer: não é que eu ache que contatos profissionais não sejam importantes. São e todos nós temos. O que é feio é posar de amigo e depois tratar exclusivamente como contato profissional. As relações precisam ser claras.)

Mas enfim, voltando ao foco… Eu acho que este questionamento sobre sonhos é fundamental – ou ao menos deveria ser para a maioria das pessoas, ou ao menos para aquelas que não querem viver a vida em negação ou em estado de alienação. Não é o único que considero importante, mas é o objeto deste post. Se preferir, ao invés de olhar pra isso como “sonhos”, pense em “o que é realmente importante pra você – o que, ao final da sua vida, te traria a sensação de paz, de satisfação, uma vida realizada?”. Eu ando fazendo este questionamento. Não é à toa que a minha lista de 101 Coisas não está completa. Tento separar a parte de mim que quer coisas (que não são exatamente “coisas”) porque estou condicionada a querer ou achar que quero, que quer coisas porque as opiniões de pessoas supostamente felizes indicam caminhos teoricamente também com maior potencial de felicidade, da parte de mim que tem sonhos autênticos. Qualquer pessoa que já tenha passado por este nível de questionamento vai concordar comigo que esta não é uma tarefa fácil. Porque o próprio pensamento, o próprio raciocínio está também condicionado.

Mas uma coisa é certa: eu não quero viver minha vida deixando que a sociedade faça decisões por mim. A vida é muito curta para gastarmos nos enganando, permanecendo deliberadamente cegos com relação à nossa realidade, sem sequer jamais nos questionarmos sobre o que REALMENTE, lá no fundo, nos faz ou nos faria felizes. Eu já vivi boa parte da minha vida fazendo opções convencionais. Já me sinto suficientemente satisfeita – e insatisfeita – por trilhar os caminhos mais percorridos. E já fiz também opções menos convencionais e conheço as conseqüências. E hoje, penso que não há nada pior do que viver alienado, conformado com uma vida que lá no fundo não te faz feliz, mas você não tem coragem para mudar – seja porque você já investiu muito tempo nesta opção, ou porque tem medo das conseqüências, ou porque a sociedade vai te olhar torto se você fizer uma opção diferente. Se você olhar pra dentro de si mesmo, sendo verdadeiramente honesto e enxergar que suas opções de vida e sua situação atual estão em conformidade com seus sonhos REAIS (não condicionados), mesmo que eles por sorte coincidam com expectativas alheias, excelente. Parabéns, você é realmente feliz. No entanto, se você encontrar dissincronicidades, reavalie seus sonhos. Penso que ninguém deveria viver conformado em aceitar sonhos e expectativas alheias. Viva os seus!

Muito embora eu ainda esteja passando por este processo de auto-conhecimento (não é a primeira vez, diga-se de passagem) e, mais importante, de auto-conscientização, eu já tomei algumas decisões recentemente que muitas pessoas não compreendem. Estou prestes a tomar outras que talvez sejam ainda menos compreendidas. E também tomei “quase-decisões” no início do primeiro semestre que me abriram os olhos para toda esta questão. E, por incrível que pareça, eu posso dizer que, no meu caso especificamente, duas coisas estão se tornando claras:

1. Quanto menos convencionais meus sonhos, quanto mais as pessoas se espantam ou me questionam, mais isso se torna um indicativo de que eu estou no caminho certo.

2. Quanto mais eu percebo que estou no caminho certo, maior é a sensação de liberdade e controle que sinto sobre minha própria vida.

E no fim, é só isso que importa. O mundo todo pode discordar das suas opções, mas se você estiver em paz com elas e elas não estiverem prejudicando ninguém deliberadamente, todo o resto é irrelevante. Por outro lado, se você não estiver feliz com as suas opções mas continuar convivendo com elas porque o resto do mundo acha que é assim que as coisas têm que ser, ou porque você está por demais acomodado ou tem medo da mudança, no fim a frustração vai continuar sendo sempre e exclusivamente sua. E se você acha que está feliz, mas nunca fez nenhum tipo de questionamento, então corre o risco de estar vivendo de forma alienada e um belo dia acordar e ver que desperdiçou anos acomodado em uma situação dissincronizada dos seus verdadeiros sonhos e valores. Então, a idéia aqui é: questione e tenha coragem para mudar, se for o caso.

Uma pessoa muito querida, conversando comigo certa ocasião, me deu uma opinião (ou melhor, um conselho) quando eu disse estar em dúvida sobre uma decisão que tinha que tomar, que acho que ilustra um pouco o que falei. Esta pessoa me disse: “Siga o caminho menos trilhado”. Na hora, me pareceu uma resposta inusitada. E depois ficou na minha cabeça. Me relembrou a importância de questionarmos os caminhos seguros que em geral tendemos a escolher.

Vou terminar com uma citação que li em um dos posts do blog que mencionei no inicio:

Whatever you do, you need courage. Whatever course you decide upon, there is always someone to tell you that you are wrong. There are always difficulties arising that tempt you to believe your critics are right. To map out a course of action and follow it to an end requires some of the same courage that a soldier needs. Peace has its victories, but it takes brave men and women to win them.
- Ralph Waldo Emerson

Tradução:
O que quer que você faça, você precisa de coragem. Qualquer curso que você decida seguir, sempre há alguém para lhe dizer que você está errado. Sempre há dificuldades surgindo que lhe tentam a acreditar que seus críticos estão certos. Mapear um curso de ação e seguí-lo até o fim requer um pouco da mesma coragem que um soldado precisa. Paz tem suas vitórias, mas são precisos homens e mulheres corajosos para conquistá-las.

Eu sei que tenho vários leitores que partilham da minha “mania de filosofar”, então, filósofos de plantão, deixem suas opiniões, por favor. E pra você que leu este post na íntegra (ufa!), “filósofo” ou não, me diga: você já fez este tipo de questionamento?

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