Thu 18 Oct 2007
Shampoo eletrônico
Postado às 8:37 am | Categoria: Bizarrices , Internet, Web e Tecnologia , Trabalho[6] Comentários
Inspirada pelo site Computer Stupidities (que traz uma compilação de relatos engraçadíssimos, por sinal), resolvi postar sobre uma história verídica que aconteceu comigo. Sempre que este assunto surge eu conto esta história, mas nunca havia me passado pela cabeça relatar aqui no blog. Aconteceu em 1999 quando eu trabalhava numa pequena agência de desenvolvimento web que, entre outras coisas, vendia pacotes de comércio eletrônico (na época tínhamos várias lojas no shopping do UOL). Os preços dos pacotes variavam de acordo com as funcionalidades, então sempre que um cliente novo ligava com dúvidas, explicávamos as diferenças.
Belo dia liga o dono de uma empresa de cosméticos. Depois de uns bons 5 minutos conversando com ele, explicando sobre cada pacote e tirando dúvidas, seguiu-se o diálogo abaixo:
(ele): Ok. Mas e a logística, como fica?
(eu): Logística? Como assim?
(ele): A entrega. Como eu entrego os produtos comprados pelo site? Digamos que alguém entre na loja e compre um shampoo. Como é feita a entrega?
(eu): Bem, nós não trabalhamos com logística. Nosso serviço é desenvolver, configurar e manter sua loja online e uma vez que você receba o pedido através do sistema, terá que cuidar da entrega usando o método da sua preferência.
(ele): Mas aí fica complicado, hem? Eu não entendo, se vocês montam a loja, como é que não cuidam da logística?
(eu): (??? baita cara de interrogação…) É como eu lhe expliquei, nós desenvolvemos, configuramos e fazemos a manutenção da loja online. Mas a entrega tem que ser feita por correio ou transportadora, ou então dependendo do porte da sua empresa e do volume de vendas, uma outra alternativa é vocês terceirizarem toda esta parte para uma empresa de logística.
(ele): Putz, mas aí vai ficar bem complicado… Será que não dá pra vocês configurarem a loja para as entregas serem feitas por email?
(eu): Por email??? Peraí, o que você está dizendo é que quer entregar um shampoo por email? (a esta altura eu comecei a achar que poderia ter entendido errado, mas…)
(ele): Isso, exatamente! (num tom levemente “superior”, como se eu “finalmente” tivesse entendido o que ele estava tentando dizer)
(eu): Não dá pra fazer isso. Não é possível.
(ele): Como assim não é possível? Se vocês não fazem, tenho que procurar uma outra agência que faça.
(eu): Então, veja bem, você não vai encontrar uma agência que faça isso. O que estou tentando lhe explicar é que não é que “nós” não fazemos, mas que é fisicamente impossível fazer isso. Um shampoo é um objeto físico, um email é uma mensagem eletrônica, não tem como enviar um objeto físico através de uma mensagem eletrônica.
(neste ponto todo mundo à minha volta me olhava com cara de espanto, risadinhas pipocando aqui e ali e eu tendo que manter a compostura)…
(ele): Ah, sei… Bem, neste caso então não tenho interesse nos serviços de vocês. Se eu não posso enviar meus produtos por email, não tem por quê eu ter uma loja online.
Acho que dispensa comentários… A não ser um: o sujeito era o DONO da empresa. Se não me falha a memória, era uma empresa de médio porte, mas a esta altura do campeonato eu não lembro mais qual era o nome da empresa. De qualquer forma, ele era o DONO e é isso que torna esta história lamentável.
Sei que parece mentira ou até mesmo que foi uma pegadinha, mas com base no comportamento dele durante toda a ligação, tom de voz e tipo de dúvidas (as anteriores a esta), me pareceu bem legítimo. E sabemos que este tipo de coisa acontece com uma certa freqüência. Estamos em 2007 e ainda há pessoas que mal sabem usar email.
Ainda ontem apaguei um comentário de uma pessoa que deixou o endereço residencial completo dela (com cep, inclusive), pedindo para que eu lhe enviasse receitas de bolo diet (??) pelo correio! (Sem sequer entender que estava fazendo um comentário que poderia aparecer pra quem quisesse ver.) Uma outra pessoa que não conseguia trocar a foto do perfil no Orkut deixou (pasmem!) o email e a senha em um comentário pedindo para eu ajudá-la (não testei, obviamente!). Não sei o que é pior: se é o fato de a pessoa me passar dados confidenciais de acesso à conta dela, se é não perceber que ao postar um comentário qualquer pessoa poderá ter acesso à conta dela ou se é sequer se dar conta de que o que está fazendo é postar um comentário em um blog e não mandar uma mensagem privada. Se isso acontece hoje, imagina nos idos de 1999.
Bem, esta é minha história no estilo “Computer Stupidities“.




